Jenny Beavan e as convenções sociais

Durante a semana toda, um dos assuntos mais repercutidos do Oscar 2016 foi o traje da figurinista Jenny Beavan. Eu não ia me manifestar a respeito, até porque, muito do que penso já foi expressado em outros excelentes textos – como aqui e aqui -, mas resolvi dar minha breve opinião porque me identifiquei com Jenny e tenho certeza que a maioria de vocês também.

Pra começar, vamos aos fatos: Jenny estava disputando a estatueta de melhor figurinista, não de melhor figurino. O que ela vestia nem mesmo deveria ter sido questionado, mas já que foi, os “críticos” deveriam ter ao menos refletido que, uma pessoa indicada dez vezes ao Oscar de melhor figurino de filme entende do assunto – essa foi a segunda vez que ela levou a estatueta para casa. Ela pode ter causado estranheza, já que estava vestida de uma maneira não convencional – ahhh, as convenções sociais! -, mas daí a leigos comentarem que ela estava inadequada para a ocasião, existe um abismo. Inadequada? Fale-me mais sobre isso! Ela estaria inadequada se estivesse nua, ou fantasiada em um evento que não era à fantasia.

Mas sabe como ela estaria inadequada realmente? Se sua roupa não estivesse fiel à sua personalidade. É compreensível que as atrizes, que obtêm seu sustento às custas também da exposição de sua imagem – seus corpos são suas ferramentas de trabalho – “aproveitem” esses eventos para desfilarem sua beleza e aliarem seus nomes aos grandes nomes da moda mundial. Elas ganham com isso, as marcas ganham com isso e assim funciona todo e qualquer mercado. Mesmo assim, há atualmente, atrizes que preferem fugir desse lugar comum. Mas por que Jenny deveria se preocupar com isso? Ela não estava ali vendendo sua imagem, a indicação era suficiente para provar seu excelente trabalho.

Como a própria comentou, “eu não uso saltos e tenho costas largas. Eu fico ridícula em um belo vestido de gala. Eu só gosto de me sentir confortável e, até onde eu sei, estou bem vestida”. Eu tenho grandes dúvidas de que ela fique “ridícula” em um vestido de gala, mas o fato é que é assim que ela se sente e isso é motivo mais do que suficiente para que ela não use um vestido de gala. Eu também não saio de casa me sentindo ridícula e não importa o que os outros digam para me convencer do contrário. O que vale mais, estar bem consigo mesma e conseguir aproveitar o momento plenamente, ou passar o tempo todo se sentindo mal, em troca de meia dúzia de elogios – e uma dúzia de críticas porque as pessoas sempre irão criticar?

Jenny estava plena, expressando ao mundo quem ela é através da sua imagem. Uma mulher segura, autêntica e muitíssimo competente. Fora o marketing pessoal. Tenha sido ele proposital ou não, é inegável o quanto foi forte. Quantas pessoas que nunca tinham ouvido falar em seu nome não foram correndo pesquisar na internet suas fotos e, quiçá, sua trajetória profissional? Torci para que Leonardo DiCaprio ganhasse o Oscar de melhor ator, mas a estatueta de melhor personalidade, com certeza foi dela.

Antes de encerrar, deixo aqui uma última questão, que me intrigou MUITO, desde que todo esse bafafá sobre Beavan começou – e acho muito válida em um momento em que se discute tanto a igualdade de gêneros. Será que se fosse um homem vestido de maneira diferente do esperado, a repercussão teria sido tão grande?

jenny_beavan

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